quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Romit- o insaciável


(a foto é do Luiz Valcazaras e da Simone Mina)

A história é a seguinte: um belo dia fui tirar as cartas com um cigano, lá em Santo André, e para espremer e resumir bem este enredo, voltei com um gato preto a tiracolo. Romit, com t mudo no final. Sempre achei que os gatos fossem uns bichos orgulhosos, independentes e sarcásticos, e por isso mesmo pensei que ia ser legal ter um. Acontece que o Romit revelou ser um gato com alma de cão, e por que não dizer, de homem, mais carente do que um, depois de um pé na bunda. No começo achei bonitinho, ele ali, me fitando com cara de apaixonado, me seguindo pela casa, querendo entrar no chuveiro... e comecei a ceder; ele dormindo na cama de noite, em cima da minha barriga no sofá, roubando meu atum em lata, roendo meus cachecóis. Só que os bichos são como os vícios, não podem mandar na gente.

Diante da conclusão de que o Romit tem mandando mais em mim do que eu nele, resolvi, há alguns dias, que ele não dormiria mais na cama. Cansei de acordar com ele embaixo da minha lombar ou com suas patas traseiras na cara. Sabe, eu adoraria que ele fosse um daqueles gatos dos Saltimbancos, arruaceiros, sacanas e que voltasse para casa por puro interesse mesmo, só para conseguir um bom filé. A Dr. Kátia, veterinária de Romit, disse que ele já foi um garanhão, um gato de briga. Eu não sei o que aconteceu entre essa fase e a vida com o cigano em Santo André, só sei que agora, ele é um gato de apartamento, asmático, amoroso e com a orelha quebrada. E não ficou nada feliz em ser expulso do quarto na hora de dormir. Na primeira noite miou durante umas seis horas, na segunda quatro e na terceira, regrediu de leve e passou a miar cinco horas seguidas.

Agora ele não mia mais, faz, na verdade, um barulho horroroso, que é uma mistura de uivo, gorjeio e miado, e para quem ouve de fora, parece que estou tirando o couro dele. Não foram poucas as vezes que eu pensei em abrir a porta e abortar a missão. Mas toda noite eu digo, ele não vai me vencer e todo dia eu repito, só por hoje não vou abrir a porta. De fato e apesar do barulho, tenho dormido melhor e feito carinho nele nas outras horas livres do dia. Mas sinceramente não adianta, Romit é um abismo de afagos e carinhos, não importa o quanto eu me dedique a ele, ele sempre quer mais. Eu disse para a Edith, faxineira:

“É o gato mais carente do mundo.”
No que ela me respondeu:
“Será que é por que ele tá no final da vida?”
Final da vida? Meu Deus, eu nem sei a idade do meu gato.
“É Edith, sei lá, só sei que eles têm sete vidas...”
“Acha mesmo?”
“Acho.”


Tantas vidas para querer amor e ele vem me pedir tudo de uma vez, esse gato. Então, já que eu não dou conta sozinha, é o seguinte: para meus amigos, fãs de Romit, que quiserem se revezar em carinhos, a casa está aberta. Agradeço.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

JÁ?

Já teve vontade de picotar tudo que tem seu nome escrito?
já perseguiu um gato na cidade?
Já construiu um muro entre seu coração e sua cabeça
e passou os meses seguintes tendo que escalar a própria vida?
Você tem ideia do que é manter em pé seu corpo,
manter suas roupas limpas,
as contas pagas
ideias claras
e o peso sempre igual?
Já teve sua cola exposta na sala da diretora,
sua redação rabiscada no mural
e o coração ensopado de xixi?
Será que você já passou horas olhando para o telefone,
tentando reconstruir um diálogo,
para ver onde foi que errou?
já te disseram que você é a cara do seu pai
e essa foi a coisa mais esquisita que poderiam
ter dito sobre você?
Já teve medo de ser esquecido
mais rápido do que gostaria?
Sentiu a vertigem de um beijo bem dado,
teve raiva quando te mandaram ficar calmo
ou ficou calmo quando o mundo caía na sua cabeça?
Já teve certeza de que era absurdo cruzar o oceano por cima
e andar em tubos por baixo?
Já se apaixonou por uma voz no telefone
ou um rosto passando do outro lado da calçada?
Já teve a sensação de que sabia mais que todo mundo na sala
ou bem menos do que aqueles que pagaram para te ouvir?
Já deu socos imaginários em idiotas
e pensou a semana toda em alguém que,
não importa o quanto você lamente,
não te quer?
Você certamente já sonhou com os dentes moles
e a vez que voltou para escola
e era dia de prova.
Talvez você não sonhe que está nua no palco
sem saber as falas,
mas já sentiu inveja
de quem diz que sonha que está voando...
Eu já te perguntei se você colecionava
coisas vivas
ou chicletes velhos?
E se você já teve medo de ficar vesgo com o vento?
cego
surdo
paralítico
e nunca mais poder subir um lance de escadas.
Já prometeu nunca mais beber, ligar, transar sem camisinha?
usou escondido a escova de dentes alheia
e empurrou os cacos para baixo do tapete?
você já olhou para a cara de uma pessoa
e teve a sensação de que ela ia morrer em breve?
Já quis ajudar alguém sem que esse alguém soubesse?
Já negou um pedido de socorro
ou gritou até ensurdecer os deuses
mas só os cães te ouviram?
Já mudou de ideia quando a porta do avião estava aberta
e você já tinha pago pelo salto?
Eu já te falei também que penso em ter filhos,
plantar árvores
mas tenho preguiça.
Já te fizeram esperar por anos?
Você já foi numa tourada?
No Grand Canyon?
Já disse que amava alguém por piedade,
jurou pelo sangue que corria em suas veias
e passou noites em claro olhando as próprias mãos?
Já ouviu séculos uma música
sem reparar na letra?
Já reparou que algumas letras não combinam com a melodia
assim como alguns corpos não combinam com as caras?
Já percebeu que você combina comigo
e eu com você?
entende a incoerência
a importância desse fato?
Já pensou sobre o que vai fazer a respeito?
Já chegou a conclusão de que talvez seja melhor não pensar?
já te disseram que você está envelhecendo?
Já leu aquele verso que diz
que a vida é curta
para ser pequena?
Já pensou em qual filme a gente vai ver hoje a noite?
Já tirou o lixo da cozinha,
brigou com a mulher da telefônica
ouviu alguma frase boa por aí,
disse alguma que vale a pena?
Você já se olhou no espelho de madrugada
e teve vontade de cortar os cabelos
com a tesoura de unha?
Posso cortar seu cabelo?
posso dormir essa noite aí?
Posso ser a primeira pessoa para quem você vai olhar de manhã
o resto da vida?
já reparou como é estúpido
chamar a vida toda que temos pela frente
de resto?
Já quis ser um pop star,
um faraó
um cavalo selvagem?
Tem vontade de segurar na mão de alguém
e não soltar mais?
Já te disse que a coisa mais legal que existe
é isso aí
sobre dar as mãos?

terça-feira, 18 de agosto de 2009

BRUTAL

Hoje começam os ensaios de "Brutal", texto e direção do Marião, comigo, Manu, Lu Caruso, Erika Puga, Cacá, Laerte Mello e Batata. Eu sempre achei esse texto meio pesado demais, apesar de bem escrito. E sempre me perguntei do por que montá-lo, apesar da ficha técnica já ser motivo de sobra. Mas na semana passada, quando fizemos uma leitura com o elenco todo, as peças se encaixaram, o sentido do texto ganhou uma amplitude aos meus olhos e eu entendi porque vou fazer esta peça, além do fato de querer me divertir um pouco mais, obviamente. Essas coisas acontecem no teatro, num dia você acorda e pensa estar fazendo uma coisa boa de verdade. No outro você tem vontade de enfiar sua cara na terra e só tirar depois da estréia. Uma hora tudo se ajeita, claro. No final da tarde vou para o ensaio, e por hora, as coisas estão todas no lugar.

acima a foto do Pereio ( a "voz" do espetáculo) ainda concentrado após a última leitura. E abaixo dois vídeos: conforme a noite foi progredindo, a situação foi piorando...
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terça-feira, 11 de agosto de 2009

DIÁRIO MOSCOU


Conforme combinado o diário da viagem para a Rússia, publicado na Piauí de março e posteriormente (numa versão editada) na Piauí Flip. Segue o original!
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diário

Esse russo está destruindo meu ego



A atriz paulista Martha Nowill, de 28 anos, passou um mês em Moscou estudando o método Stanislasvski de interpretação na Academia Russa de Arte Teatral. Acompanhada da colega Maria Manoella, Martha estudou sobretudo Tio Vânia, de Tchekhov, com o decano da faculdade, Valentin Vassílievitch Teplyakov. Foram 120 horas de aulas, temperaturas de deixar um pingüim histérico e ensinamentos do tipo “os atores brasileiros interpretam personagens de Tchekhov, que são cães de raça, como se fossem vira-latas .”



São Paulo, Natal de 2008, 23 graus
O aeroporto de Guarulhos é tão cheio no natal quanto em qualquer outro dia do ano. Fora o fato de as moças da KLM usarem chapéus com chifres de rena, o resto é igual na companhia. Filas e mais filas carregando um trambolho nas mãos: o casaco que demorei quinze dias para escolher. Qual levar para a Rússia? As pessoas me aterrorizam, riem da minha cara quando digo que vou passar o inverno em Moscou, me emprestam blusas térmicas, luvas de esqui, coisas que só de olhar me dão calor. Sem contar meu pai, que ficou repetindo que o inverno russo derrotou Napoleão. E Hitler! Apavorada, fui atrás do casaco de peles da minha avó. Fiz o resto da mala com receio de ser atacada por algum ativista maluco, mas segura de que venceria o frio.

Amsterdam, Holanda 26 de dezembro, 0 grau
Assim que desembarquei, o casaco da minha avó rasgou. Passei o dia com uma corrente de ar entrando pelas costas. Fomos a um coral cossaco e a Manu não sossegou enquanto a gente não sentou num coffee-shop.

Vilnius, Lituânia, 27/12, -3 graus
Chegamos a Vilnius, uma cidade de bonecas. Tenho usado um casaco reserva que só cobre até a cintura, morro de frio na bunda. Andei atrás de um novo e não encontrei. Tudo muito caro por aqui.

Vilnius, 28/12, -5 graus
Tenho febre. Vai ser difícil sair para comprar um casaco. É que ontem à noite saí com os cabelos molhados do hotel, tomei seis litros de chope local e dei pulos de alegria na neve. Os lituanos têm o cabelo cor de rato e falam a língua indo-européia mais arcaica que existe, mais velha até que o sânscrito. É como se fosse um fóssil vivo de línguas desaparecidas. São muito curiosos e acharam estranho duas brasileiras indo a Moscou estudar Stanislavski.

Entre Vilnius e Riga, 29/12, -4 graus
É estranho ver os mendigos usando casacos de pele. Essa noite ardi em febre, acordei melhor e fui atrás do casaco. Gastei um quinto da alimentação da viagem com ele. Paciência. São seis da tarde e estamos no ônibus para Riga. Não se vê nada pela janela.

Riga, Estônia, 30/12, -3 graus
Cada dia que passa, compramos mais um acessório para o frio, além da alimentação gordurosa. Não agüento mais comer porco no café, almoço e jantar. O Gustavo, nosso amigo e agente de viagens especialista em Rússia, me veio com a história de que não podemos perder o prato nacional da Estônia: lingüiças de sangue. Só sei de uma coisa, se eu continuar comendo esses bichos nacionais diariamente, em duas semanas quem vai virar um bicho nacional sou eu: um urso gordo e pardo.

entre Riga e Tallin, réveillon, -5 graus
Último dia do ano. Sonho com Moscou, com o curso e nossas personagens: Sônia e Helena, uma mais triste e desperdiçada que a outra. A princípio Manu faz a bela Helena, e eu, Sônia, o patinho feio de Tchekhov. Pensamos em trocar os papéis: como tenho feito mais sucesso com o público masculino das redondezas, a mudança pareceu bem coerente. Mas vamos deixar a decisão ao Valentin, o decano da faculdade de interpretação da Academia Russa de Arte Teatral, nosso futuro professor e carrasco.

Tallin, 1º de janeiro de 2009, -7 graus
Descobri a melhor técnica do mundo para gelar um champanhe. Saia com uma garrafa na mão pelas ruas da Estônia e em minutos ela estará mais gelada que a neve do chão. Passamos a virada nos muros de um castelo medieval, as pessoas todas na rua, como se estivessem a 23 graus. O primeiro dia do ano amanheceu limpo, com sol, como se espera de um primeiro dia. Passeamos até começar o vento.

Helsinki, Finlândia, 3/01 -10 graus
Amanhã pegamos o Tolstoi, trem para Moscou. Faz vinte graus negativos lá. Passamos a cena hoje, foi horrível. Há sempre o dia em que você percebe o grande canastra que pode vir a ser. Ontem foi assim, uma pior que a outra, a voz em falsete, as interrogações exageradas e a informação perdida. “Quem eu penso que estou enganando?” é o que me vem na cabeça nessas horas. O pior é que a gente sempre engana alguém.

Fronteira russo-finlandesa, 4 /01, -10 graus
Estamos no trem dividindo cabine com um casal de russos simpáticos. Os russos fazem verdadeiros piqueniques nas cabines, com chá, pães e vodka. Um deles riu do meu casaco e disse que se a temperatura passar de menos dez, eu não consigo sair do metrô. Amanhã de manhã o Valentin vem nos buscar na estação. Só vejo neve da janela e, não fosse o peso das malas, pareceria mesmo um filme.

Moscou 5/01, -18 graus
Do que se consegue ver além do branco, Moscou é majestosa. O lugar onde a gente vai estudar, o Gitis, é o sonho de qualquer estudante de teatro. Imagine uma escola russa, com fotos de grandes mestres, num prédio neoclássico do século XVIII, banheiros soviéticos e a sala do decano cheia de picles e vodka. A nossa turma tem onze brasileiros e uma portuguesa, Soraia. O curso é em russo, com tradução para o português. Fomos as únicas a escolher Tio Vânia para encenar, a maioria parece ter paixão pela Gaivota. Melhor, assim o russo não vai ter meios de comparar.

Moscou 6/01, -15 graus
Eu já sabia: memória emotiva não funciona. Ninguém usa esse recurso aqui. Já no Brasil vivem querendo nos empurrar essa “técnica” goela abaixo. É um pouco óbvio, que, se você pensar na morte da sua tia para chorar numa cena de Macbeth, vai estar se distanciando da situação proposta. Nem o Stanislavski acreditava nisso. Acontece que ele experimentava um monte de coisas e seus discípulos saíam por aí escrevendo livros e teorias, que, passado algum tempo, ele mesmo percebia que não funcionavam. Mas aí várias dessas idéias equivocadas tinham virado cartilha.

Moscou 7/01, -10 graus
“Não existe mulher feia, existe pouca vodka”. Foi como o Valentin começou a aula hoje. Ele deu um banho de água fria na nossa escolha dramatúrgica. Disse que Tio Vânia é uma peça para homens, e que como Sônia e Helena são personagens secundárias, não pode fazer grande coisa a respeito. Ficou mais preocupado ainda quando a gente disse que vai montar a peça no Brasil. Mas ele é muito debochado e se em parte tem razão, o resto é deboche. Estou exausta, essa coisa de suar em lugares quentes e passar frio nas ruas cansa o corpo.

Moscou 8/01, -12 graus
Foi um dia difícil. Tivemos a infeliz idéia de sermos as primeiras a se apresentar. A primeira coisa que o Valentin disse para a tradutora foi: pergunta para elas por que elas sentem tanta pena de si mesmas. Depois começou a dirigir meu monólogo inicial. Niet! (não!), ele gritava antes mesmo que eu conseguisse proferir a segunda sílaba. Após algumas tentativas, perguntou se eu realmente estava entendendo o que ele dizia, como se dissesse “essa atriz tem algum problema?” No fim da tarde, tive uma mão congelada que demorou horas para voltar. Uma atriz de Fortaleza, Ecila, me disse que nessas situações de frio extremo, o único jeito de descongelar uma parte do corpo é colocando-a entre as axilas.
Chegamos ao teatro às sete da noite para assistir Três Irmãs, em russo, claro. A montagem era boa, mas tinha quatro horas de duração e a única palavra que entendi foi pausa. Cheguei moída no alojamento, sonhando com o presunto cru que tinha comprado na véspera. Achei que ele estava esquisito, muito gorduroso, até que a portuguesa avisou: “Martha, isso que estás a comer é banha”. Vou dormir antes que algo pior aconteça.

Moscou, 10/01, -15 graus
Hoje foi nossa folga e eu só saí do alojamento á noite. Fomos assistir Dom Quixote, um musical que beira o cafona, mas emociona bastante. O teatro está para o russo como o futebol para o brasileiro. Se houver três montagens da Gaivota na mesma cidade, as três estarão lotadas durante os anos que ficar em cartaz. A hora do agradecimento é emocionante: o público bate palmas ritmadas, as pessoas entregam flores e bombons para seus atores prediletos e acontece uma comunhão mágica entre os artistas e a platéia. O Dom Quixote de hoje tem 93 anos e é um grande ator, um Paulo Autran daqui. O metrô já tinha fechado quando voltamos. Tivemos que pegar um táxi, o que significa chamar qualquer carro na rua e combinar um preço (ninguém pega táxi aqui, é muito caro). Quando o Gustavo fez sinal para um carro parar, a gente ficou na calçada esperando. Em doze segundos, havia oito carros em volta da gente.

Moscou, 11/01, -10
Se algum russo te oferecer vodka, não recuse. Vire depois do brinde e tome alguma coisa doce que te servirem, tipo uma compota de frutas fervida com açúcar ou uma coca-cola. A volta no metrô e as placas indecifráveis são por sua conta.

Moscou 14/01, -2 graus
Fez um calorão nos últimos dias. O gelo começou a derreter e as pessoas escorregam a torto e a direito. Moscou é pura lama. Nosso ritmo de trabalho é duro: a gente acorda oito da manhã, faz o café, sai para a primeira aula, almoça a ração do refeitório do Gitis e faz a segunda aula até cinco da tarde. Então vamos para o teatro assistir alguma peça que geralmente dura em torno de quatro horas. Costumo dormir os dez minutos iniciais para agüentar o tranco. A gente volta para o alojamento e janta, bebe, lava roupa na pia, põe para secar na calefação, estuda a cena e, quando vê, está quase na hora de acordar. Todos estão exaustos, com os egos feridos por conta dos gritos do Valentin. Hoje apresentei meu monólogo final. Acho que ele gostou, quer dizer, não ficou repetindo alto “Pachimu?” (por quê?), como costuma fazer, nem mencionou algo como “tudo o que você diz é da boca para fora”. Se bem que dizer que gostou já é exagero.

Moscou 15/01, -6 graus
Esse russo filho da puta está destruindo meu ego dia após dia. Diz que tem ouvido absoluto para a verdade, que quando eu estiver sendo verdadeira, ele vai saber. Se eu me expresso, ele diz para eu não demonstrar a emoção. Se não demonstro, ele diz que não há nada dentro de mim. Se sento, diz que meu corpo está sem vida, se ando, ele pergunta se existe algum motivo para eu andar. Ele fala coisas como “os atores brasileiros interpretam personagens de Tchekhov, que são cães de raça, como se fossem vira-latas”. Eu disse para a Manu: que merda a gente veio fazer aqui, além de passar frio? Ela respondeu: a gente veio desgastar nossa relação e acabar com nossos egos.
Voltou a nevar.

Moscou 17/01, -5
Eu e Manu brigamos. Feio. Mas a parte boa é que ontem tive uma conversa emocionante com o Valentin. Falávamos sobre Stanislavski e desatei a chorar. Existem dois tipos de interpretação: uma, puramente técnica, que imita a verdade, e outra, também técnica, que vivencia a verdade. Quando saí da escola de teatro, eu acreditava na verdade. Quando digo “verdade”, não tem nada a ver com aquele tipo de tortura emocional que os preparadores de elenco, como a Fátima Toledo, fazem com os atores no cinema nacional. É uma verdade outra, mais pura e profunda. Depois de alguns anos trabalhando, comecei a perceber que a interpretação puramente técnica era mais rápida e também funcionava. Nunca parei de atuar com meu coração, mas passei a desconfiar da idéia de uma atuação inteiramente verdadeira e cheguei até a desdenhar esse tipo de idealismo. Seguem-se os dias, as estréias apressadas, os ensaios de luz e som, diretores impacientes, a agenda apertada, a falta de grana, nada disso ajuda. Dez anos depois eu venho para a Rússia e me deparo com um homem que nada contra a maré, que acredita no artista, que cutuca seu ego e instiga seu coração até o limite, que te mostra o caminho de como fazer mais e melhor. E fico confusa.

Moscou 18/01, -6 graus
O Lênin embalsamado não é agradável de ver. Depois fomos às compras. Eu e Manu quase morremos de hipotermia na feira de artesanato. A gente ficou tão louca com aquele monte de xales e matrioskas que já era noite e ainda corríamos as últimas barracas da feira, escorregando no gelo, carregadas de sacolas e geladas, bem geladas. Nossos casacos e botas têm dado conta do frio, só que as botas dão um chulé terrível. E olha que nunca tive chulé. Mas tudo bem, porque como o grupo inteiro está com esse problema, ninguém sente o chulé do outro.

Moscou 19/01, -4 graus
Hoje à noite tenho um encontro marcado com o Sasha, que é um russo lindo que conheci na semana passada. Sasha é abreviação de Alexandre, nome do meu pai por acaso. Eu estava comendo aquela ração no refeitório, quando ele apareceu. O moço mais lindo da escola. Conversamos num inglês ruim de doer e meia hora depois ele foi até minha sala de aula com uma maçã. Quase morri do coração, foi o gesto mais puro e lindo que já vi. Os estudantes daqui são muito duros, e os russos, se não podem pagar uma conta, por menor que seja, nem saem com você. Mas eles sempre têm um gesto desse tipo: hoje ele desceu as escadas do Gitis com um doce para mim. Combinamos de nos ver à noite.

Moscou 20/01, -3 graus
Deu tudo errado. O Sasha veio me ver e foi barrado na portaria do alojamento. Briguei com o velhinho que não deixou ele entrar, mas não teve jeito. Aí saí com o pijama embaixo do casaco, as pantufas dentro da bota e dei a volta no quarteirão até o alojamento dos russos. Manu e Soraia foram comigo. Só que a velhinha que cuida da porta de lá não me deixou entrar de jeito nenhum. Manu sofria com um dicionário, tentando se comunicar com ela, eu sofria de aflição e Soraia ria de nós duas. Quando ele apareceu na porta, foi uma novela mexicana: dois jovens apaixonados na neve sem ter para onde ir, sem ter uma língua em comum e desesperados. Então a gente resolveu dar nosso primeiro beijo ali mesmo, um beijo desalojado. Foi quando notei que, no meio desse nervosismo todo, tinha fumado uns quatro cigarros nos últimos quinze minutos. O problema é que o moço odeia cigarro e quando o beijo acabou ele disse: “Você faz mesmo questão de fumar?”. Agora são nove horas e ele ficou de vir à meia-noite. Já armei um esquema com o porteiro do dia, mas não sei se ele vem, depois do meu beijo sabor Ruskie Style, o cigarro mais gostoso daqui.
Ah, sim: finalmente o Valentin elogiou nossa cena! Ele disse “parabéns” (pausa). “Melhorou” (pausa). “Dá para ver que vocês finalmente entenderam” (pausa). E aí começou a desfiar as novas críticas, claro.

Moscou 21/01, -4 graus
Esperei, esperei e ele não apareceu. A gente se esbarrou na escola e ele falou um negócio que não entendi. Fim da tarde a gente se trombou de novo, e dessa vez fui eu quem falou algo incompreensível. Muito frustrante isso. Se a falta de comunicação impera nas relações humanas, imagine entre um russo e uma brasileira. Se bobear, meu russo está melhor do que o inglês dele. Já sei um monte de palavras e frases, entendo vagamente o que as pessoas dizem, saio sozinha, não compro mais bacon no lugar de presunto e ando com um dicionário na bolsa. Se alguém fala alto comigo (o que é bem comum) falo mais alto ainda. E se me importunam na rua eu começo a falar português e a pessoa sai correndo, assustada.
Hoje tivemos aula com a Zinaida, uma atriz que tem os maiores olhos do mundo. Ela entrou como um canhão na sala e eu, de sobressalto, levantei em reverência e disse: “Sdratsia” (olá). Fui a única. Ela nos passou um sermão, disse que quando um professor chega todos devem se levantar e ficou impressionada com nossa falta de postura. O Valentin nunca tinha reclamado, está acostumado à informalidade dos brasileiros. A aula da mulher foi incrível, deu uma visão muito esclarecedora sobre nossa cena. Finalmente consigo enxergar a personagem, de trás para frente, do avesso, cada canto dela. No final, ela disse a coisa mais clara e sábia que eu já ouvi sobre Tchekhov: “Em Tchekhov é assim: você respira na coxia, antes de entrar em cena, e só solta o ar na hora do agradecimento”

Moscou 22/01, -6 graus
Quando a cena acabou, me senti exausta de tanta concentração. O Valentin nos deu parabéns. Fiquei feliz. Porque ontem mesmo eu falava que conseguia finalmente enxergar a personagem e foi o que ele disse hoje: “Olho para você e consigo ver a Sônia”. Eu e Manu nos olhávamos de verdade e nos entendíamos. Foi bonito.
Depois da aula encontrei o Sasha no refeitório. Ele tirou um laptop da mochila com um tradutor automático do russo para o inglês, disse que estava triste por não ter me encontrado, que se sentia apaixonado, blábláblá, que não conseguia vir aqui e que a porta do alojamento dele fecha a uma e só abre às seis da manhã. A certa altura da conversa, falei que a gente devia ficar junto, e ele entendeu que eu o estava chamando para morar comigo. Foi uma confusão, mesmo com o tal tradutor. Aí ele me deu uma pilha de chocolates e foi para o ensaio. Ele vem esta noite.

Moscou 23/01, -1 grau
O Sasha me deu mais um cano e a cidade derreteu novamente. Eu nem ando mais pela rua: apenas deslizo e a cada minuto que passa peço a Deus para não levar um tombo. Hoje eu andava sozinha pela Praça Vermelha e ouvi uns brasileiros conversando. Parecia uma alucinação. Segui-os durante um tempo e a certa altura gritei “Ei, vocês são brasileiros?” Faz três anos que eles moram aqui, estudam piano. Senti uma vontade enorme de ter vinte e poucos anos e vir para a Rússia passar quatro anos estudando teatro no Gitis. Mas não tenho mais esse tempo, nem disposição. Tenho pena de ir embora. Não sinto saudades de São Paulo, nem das ruas do meu bairro, nem da praça Roosevelt. Não sinto saudades de nada que eu pensei que sentiria. Só tenho saudades da Inês, minha irmã mais velha que está grávida de oito meses. Tenho saudades da barriga dela e mais nada.

Moscou 24/01, -4 graus
A gente tinha comprado uma vodka para o Mário Bortolotto, mas matamos a garrafa toda ontem a noite. O grupo foi para São Petersburgo e ficamos sozinhas no alojamento. A vodka russa não dá ressaca, não mesmo. Acho que é por isso que os russos vivem bêbados, tropeçando no metrô. Sinto o cheiro de vodka amanhecida quando estou dentro de um vagão apertado, e isso me enjoa. Hoje é sábado e fomos ver os impressionistas na galeria do Museu Puchkin. À noite assistimos Tio Vânia num teatrinho perto da escola. O ponto de encontro era às seis da tarde no gabinete do Valentin: ele colocou Cartola, serviu um conhaque e ficamos ali em silêncio até hora da peça. Gosto do Valentin, ele é grandão e como todo homem grande, é bom. Põe terno para dar as aulas, exige seu melhor, te olha com interesse quando percebe que algo em você se movimenta. E ao mesmo tempo é bravo, debochado, impaciente, fica vermelho quando grita. É um homem muito bonito, um mestre sem as chatices de mestre. Eu e Manu o abraçamos diariamente e dizemos que ele é nosso Astrov, personagem objeto de desejo de Sônia e Helena. Ele ri, gosta da gente.

Moscou 25/01, -2 graus
Tem um ninho de corvos na minha janela. Olho para a neve e penso no boneco que prometi fazer. Hoje tinha uma babushka de neve gigante no jardim e eu tirei um monte de fotos com ela, na esperança de que alguém acredite que fui eu quem fez. Acabo de receber uma rosa vermelha aqui no alojamento. Do Sasha.

Moscou, 26/01, 0 grau

Hoje o Valentin veio dar aula bêbado. Chegou na sala com a cara vermelha, assistiu nossa cena (que não regrediu nem evoluiu) e ficou enchendo lingüiça o resto do tempo, falando sobre a Rússia e a decadência na educação. Na saída encontrei o Sasha e agradeci a flor. Ele disse que vem me ver esta noite. Não boto muita fé.

Moscou, 27/01, - 1 grau
Isso eu vou escrever com gosto: o Sasha veio me ver na noite passada. Foi coisa da providência divina: a certa altura da noite, o velhinho que fica na porta resolveu aparecer na cozinha. O Gustavo ofereceu vodka e eu dei a ele um prato de lentilhas. O velhinho, veterano de guerra, ficou lá, contando suas histórias. Nesse meio tempo meu namorado russo chegou e não tinha ninguém para barrá-lo.
Fora isso, a terça-feira transcorreu tranquilamente. Trabalhamos alguns versos de Homero na aula de voz e, à tarde, passamos todas as cenas da turma para o Valentin assistir. Estou feliz, ele falou que tinha muita alegria em assistir nossa cena de Tio Vânia e elogiou meu monólogo final. Disse que o bom teatro é aquele que emociona sem que seja preciso compreender uma só palavra, e que eu tinha conseguido isso hoje. As meninas que escolheram fazer A Gaivota estão sofrendo bastante. A personagem se mantém indecifrada para elas, para nós, para o Valentin e acho que para toda e qualquer atriz que já tenha tentado fazer a Nina no teatro. Fiquei com vontade de tentar.

Moscou, 28/01, -3 graus
Tenho pena de partir. Gosto de sentir o ar frio na cara quando saio do metrô, gosto da convivência com o grupo, das escadas do Gitis e até do trigo sarraceno que eles servem no refeitório eu comecei a gostar. A vida passa rápido, isso fica ainda mais nítido e desesperador quando se viaja. Hoje apresentamos nossa cena e parece que chegou a hora de darmos um passo adiante, de aprofundarmos as personagens e de conseguir repetir hoje, o que já conquistamos ontem, como se fosse pela primeira vez. Mas é esse o grande desafio do teatro não é? Repetir todos os dias a mesma cena, talvez durante anos e fazer com que ela esteja viva como se acabasse de nascer. Tudo isso sem ligar o piloto automático, que tal?

Moscou, 29/01, -3 graus
Tivemos as aulas finais de corpo e voz e eu aprendi como usar meus tons agudos sem machucar a garganta, só direcionando a vibração. Outro insight foi na aula do Valentin: não existe como no vocabulário do ator, só existe o quê, o quê fazer? Um cirurgião nunca vai pensar em como fazer, e sim em o quê fazer. Como é aparência, o quê é pensamento. E por aí vai. Vi o Sasha na hora do almoço. Formamos um perfeito casal à la Romeu e Julieta, apaixonados e impedidos pelas “circunstâncias dadas”, termo essencial da gramática stanislavskiana. Tenho vontade de colocar ele na mala e despachá-lo para o Brasil. Vivo encontrando tanta gente fechada, tantos homens esquisitos, viciados em jogos afetivos, torturas sentimentais, que quando vejo um moço como o Sasha, que tem o coração do tamanho da Sibéria, a pureza e disponibilidade que procuro, me dá vontade de chorar. Ele fica desesperado, coitado, cada vez que meu olho dá sinais de vermelhidão.

Moscou, 30/01, -6 graus
O Valentin chorou enquanto assistia meu monólogo, usou o adjetivo “magnífico” para falar sobre o que eu tinha feito, disse que Sônia, minha personagem, tinha tudo. Também adorou a cena que eu e Manu fizemos juntas. Missão cumprida: chegamos aqui achando que íamos arrasar, tomamos uma, outra, esmigalhamos o orgulho que nos restava, e ressurgimos das cinzas – ou melhor, da neve – maiores do que antes. Consegui unir a técnica que adquiri nos últimos anos com a emoção que vinha deixando de lado. E após um mês de tortura, o mestre preparou um banquete de despedida: uma mesa com frutas, peixes, massas, salames e muita vodka. Fim de noite, antes de ir embora, eu olho mais uma vez para o Valentin. Ele me diz para tomar cuidado e não escorregar no caminho. Eu sei, eu sei, respondo e quase sufoco o russo com meu abraço.

Moscou, 31/01, -15 graus
Moscou acabou com a trégua que tinha nos dado e voltou aos velhos e bons menos quinze. Levantei heroicamente da cama e fui até o Museu Maiakovski. Não gostei, não gosto muito dessa coisa da escova de dente de alguém que se matou há sei lá quantos anos exposta para os turistas. Também me dá aflição o coitado do Lênin embalsamado, parece que nunca vai conseguir descansar. “Gente é para brilhar, este é meu slogan e o do sol”, disse Maiakovski. Voltei para o alojamento mais deprimida do que saí. Eu e Sasha vamos tentar nos ver esta noite, queria fazer alguma coisa incrível, aproveitar a cidade o quanto posso ou comer camarão numa sauna russa. Mas não tenho forças e o frio não ajuda. Olho para a bagunça sem fim do quarto e imagino se vou conseguir colocar tudo dentro da mala.

Moscou, 1º de fevereiro, -25 graus
Visitamos a casa do Stanislavski e, ao contrário da do Maiakovski, tinha um astral muito bom. No nosso último dia aqui, nos perdemos, quase congelamos. Para não perder o costume, levei um puta cano do Sasha, que está na véspera dos exames de formatura. A maioria das pessoas do grupo já foi embora e o alojamento está mais silencioso que nunca. Cozinhei e coloquei meu pijama, encardido da vida de estudante russa e da calefação. Amanhã é dia de Iemanjá e estarei sobrevoando o oceano. Ano que vem eu volto, se Deus quiser.

Céu, entre a Europa e América, 2 de fevereiro
Moscou não acredita em lágrimas, é um clássico do cinema georgiano, e eu não acredito que o Sasha não veio se despedir de mim. Será que não gosta de despedidas, ou não gosta de mim mesmo? A conexão para Paris atrasou e quase perdemos o vôo para o Brasil. Todos perguntam sobre o olho roxo da Manu, ela faz um sinal de beber, diz a palavra “vodka” e depois faz outro sinal de cair.

São Paulo, 3/02, 20 graus
É surreal sair de uma temperatura de menos vinte e ir para mais vinte. Desejo ardentemente um copo de suco de laranja natural. Para meu desespero, só tem um pacote de salame na geladeira. Sinto falta do frio queimando de leve a bochecha.
Terminar mexe com as entranhas. Lembro que, quando era criança, tinha a sensação de que ia morrer de tristeza quando as férias acabavam, quando uma festa acabava ou uma sessão de cinema chegava ao fim. Minha mãe sempre dizia que outras festas viriam, que as próximas férias não iam demorar e que no domingo seguinte também teria cinema. Não adiantava, alguma coisa sempre ficava para trás, como fica agora. Mesmo quando a vida é boa, há um tanto de crueldade nisso. Em Moscou, tinha me prometido ficar uns dias em casa descansando, mas acho que logo mais vou colocar minhas sandálias e sair por aí.

domingo, 9 de agosto de 2009

para aqueles que gostam de poesia

Não é sempre que um plágio vira briga judicial. Muitas vezes é homenagem, inspiração. Vimos muito disso no curso do Antonio Cícero. Um bom exemplo é esta obra-prima escrita por Camões. Vale a leitura, vale o tempo que você dispuser, vale cada minuto que você vai gastar para lê-lo e vale reler também. Depois vê embaixo a poesia de Petrarca, que foi o ponto de partida de Camões. Curioso não? Como uma coisa genial, pode ficar mais genial ainda...


Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio;
O mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quanto sinto um desconcerto;
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao Céu voando;
Numa hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar uma hora.

Se me pergunta alguém porque assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.


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Paz não encontro e nem me quer a guerra;
E temo e espero e ardo e sou gelado
E vôo sobre o céu e jazo à terra;
E nada aperto, e o mundo todo abraço.

Quem me prende não larga nem encerra,
Nem por seu me retém nem abre o laço;
E nem me mata Amor nem me liberta,
Nem me quer vivo nem quer meu trespasso.

Vejo sem olhos, sem ter língua grito;
E anseio por morrer, e peço ajuda;
E me odeio a mim mesmo e amo a sós.

De dor me alimento, chorando rio;
Igualmente desprezo a morte e a luta:
E neste estado estou, mulher, por vós.


(tradução de Antonio Cícero)

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

ainda hoje

Chego em casa depois do curso com Antonio Cícero e escrevo mais dois poemas. Não posso colocá-los aqui, pois guardo para o livro. Minha cabeça gira em torno de rimas, liras e versos heróicos. Bonito o termo, não? Antonio disse que se assusta com os alunos que dizem gostar de fazer, mas não de ler poesia. Também eu sempre me irritei, mesmo que mansamente, com os atores que afirmam adorar fazer teatro, mas detestar freqüentá-lo. Senão nós, quem mais irá nos assistir? É tarde e tenho preguiça de sair para comprar mais uma garrafa. Boa noite.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

ANA C


Estou feliz. Dia 23 de setembro farei mais uma vez Ana Cristina Cesar. Este é um espetáculo em parceria com Fernanda D'umbra e Edson Kumasaka sobre a poeta carioca. É difícil escrever uma sinopse sobre ele, porque a sinopse soaria uma pouco chata, coisa que a performance está longe de ser. Entre outras coisas lindas que Ana C escreveu:

FLORES DO MAIS

devagar escreva
uma primeira letra
escreva
nas imediações construídas
pelos furacões;
devagar meça
a primeira pássara
bisonha que
riscar
o pano de boca
aberto
sobre os vendavais;
devagar imponha
o pulso
que melhor
souber sangrar
sobre a faca
das marés;
devagar imprima
o primeiro
olhar
sobre o galope molhado
dos animais; devagar
peça mais
e mais e
mais


Vai ser no Londrix, ao som de The Police, que era a banda predileta da loira.

sábado, 1 de agosto de 2009

anatomia

No começo era inocente guardar o segredo sob a rótula do joelho direito, se o resto do medo tinha se coagulado em sangue pisado, bem embaixo das unhas. Ela não tinha mais vinte e poucos anos. O rastro que a angústia deixou nas vezes que varreu o corpo todo, da sola ao couro cabeludo, tinha sido impresso, de leve, sobretudo na panturrilha. E era estranho não poder, nem por um minuto, separar-se de si mesma. E se ela quisesse dar uma volta no quarteirão sozinha? E se ela quisesse, por motivos que não vem ao caso contar, tomar banho sozinha? Mas não, ela tinha que ir junto com ela. E como se fosse um jogo, tentou lembrar da última vez que sentiu ódio. Não lembrou porque faz muito tempo. Raiva sim, mas em nenhum lugar específico do corpo. Vinha em forma de pequenas fagulhas nervosas, que se espalhavam como catapora na pele. Logo depois desapareciam sem aviso, do mesmo jeito que chegavam. Na palma da mão esquerda uma confissão, que era a irmã mais nova do arrependimento, que embora tímido, ousava deitar-se como um rei sobre o peito do seu pé. E assim ela vivia. De vez em quando olhava para a barriga e sentia que uma náusea tentava se instalar nas paredes do estômago. Era seu instinto de defesa que fazia com que ela corresse até a janela em busca de ar, e assim que o fazia, logo via alguém na rua que julgava estar mal agasalhado.“Esse vai passar frio mais tarde...”ela pensava. Desse jeito esquecia da náusea, e a náusea se esquecia dela. Constante mesmo era a ansiedade, que apesar de decrescente nos últimos anos, ainda arrebitava o seu nariz. O nariz por sua vez, tentava se livrar da bandida, empurrando-a hostilmente para o pescoço. O pescoço, embora um gentleman, não conseguia carregá-la por mais de meia hora. Sem saída, a ansiedade escorria pelos ossos, até se alojar, espremida entre a primeira e a terceira, na segunda vértebra. De lá para o mundo: diluída em panos quentes e algo bom que o dia traria. Sem falta. A inveja era nula, ou quase, remanescente da época em que fez tudo errado. O pior mesmo era a culpa, que de tão subjetiva, sempre se apossava de algum lugar novo. Era uma inconveniente, a pior das parasitas, que vinha quando ela achava que finalmente tinha liquidado o assunto, vinha para mostrar que o corpo era dela também. Mas não era; o corpo era o corpo. E ela poderia sim, ser o cabide das próprias oscilações, não fosse o endocárdio, que ali na altura do peito, entre o miocárdio e o pericárdio, seguisse inabalado. O peso que carrega, é mais leve do que; O que pode ser mais leve que uma pluma? Então, é isso! O peso da parte mais interna do músculo era mais leve, do que pode ser mais leve, que a pluma.

Essa era a graça de tudo.