quarta-feira, 17 de novembro de 2010

o barulho


(foto de Murat-Suyur)

O começo dessa história parece um conto do Cortázar, ou algo parecido. Um dia ouvimos um barulho, que vinha do banheiro do meio. O apartamento tinha sido infiltrado pela água vazada da reforma do 62 e foram dias de água pingando, do mofo crescendo nas bordas de gesso, os tacos inflando, a umidade e agora aquele barulho.

Só podia vir da luz. Então desligamos a luz, e imaginamos que uma vez desligada e depois que a água secasse, o apito cessaria. Dias se passaram e o apito continuava.

Então passamos a observá-lo afim de notar alguma lógica em sua existência. Talvez ele diminuísse a noite ou parasse na madrugada? Mas o apito continuava, constante e igualmente irritante a cada minuto de nossa vida na casa. Certa manhã passamos a ignorá-lo, tiramos as lâmpadas, cortamos o dedo, fechamos a porta e abafamos o som com toalhas. Mas depois de alguns dias, ou bem nossos ouvidos estavam mais apurados ou o apito havia aumentado. Ligamos para a proprietária do 62 e exigimos um eletricista que resolvesse o nosso problema, que afinal era dela também. E veio um homem, que sujou todo apartamento com pegadas de poeira, tirou nosso lustre, fez uma cara feia e disse: "Esse barulho não vem daqui não.", "Como não, então vem da onde?!", "Sei não Senhora".

Mais alguns dias nasceram e morreram com o apito em nossas vidas. Algumas madrugadas cheguei acordar em vigília. Levantava da cama e ia checar o apito, aflita com a possibilidade de que ele desaparecesse sem a nossa ciência.

Devemos ter convivido com esse zumbido durante um mês. Então veio um especialista, o eletricista chefe. Desligou a energia do apartamento, tirou o lustre, encarou os fios: "Não é barulho de eletricidade não senhora.", "Mas é da onde?", "Sei não Senhora."

Foi nessa hora que surgiu a teoria de que o som, vinha de fora. Ou do corredor. Aí passamos a colocar os ouvidos na janela e em outros cantos da casa. E quanto mais procurávamos, mais o barulho parecia se safar.

Um dia eu disse:
"Chega desse cabelo. Pega a tesoura que eu vou cortar."
A resposta veio em alguns segundos.
"Achei!"
"O quê? a tesoura? "
"O barulho."
"Onde? onde ele tá?"
"Na gaveta, vem de dentro dessa coisa estranha."


Era o meu antigo aparelho de depilação. A água havia infiltrado os armários e a bateria do aparelho apitava como um navio distante dentro da gaveta.

Eu então desconectei as baterias que imediatamente fizeram o barulho desaparecer.

"Era isso?"
"Era."
"Que mais estúpida."
"Pois é, que vergonha."
"Bom, se perguntarem a gente diz que o barulho simplesmente parou."
"Combinado."
"Não vai me desmentir hem...e contar do meu aparelho de depilação."
"Não, que isso."


Mas eu não resisto ao relato. Lembrei daquelas histórias que a gente ouve com cinco ou seis anos de idade e sempre tem uma moral no fim. Depois a gente fica grande e pergunta "E a moral da história?". "Que moral?"

Pois essa tem: Às vezes o barulho vem de dentro.

3 comentários:

  1. Martha , que narrativa lindaa! escreva um livro !

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  2. Não pude deixar de lembrar do filme Lemming (com a Charlotte Gainsbourg e a Charlotte Rampling). Tudo a ver com o suspense doméstico surreal do seu BARULHO. Lá, o mistério é na cozinha. Se achar em alguma locadora, pegue e veja numa madrugada de verão.

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  3. vou ver o filme! vou tenatr escrever um livro....bjs

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